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As inscrições do pai na cidade-corpo contemporânea

  • felipebierpsicanal
  • 22 de mai. de 2021
  • 5 min de leitura



Felipe Bier


Poucos são os textos de literatura contemporânea brasileira com maior pungência e relevância ao campo literário do que O sol na cabeça, de Geovani Martins. Livro de pequenos contos publicado em 2018, a obra tece uma visão em caleidoscópio da cidade brasileira. Trata-se de um retrato particularmente fidedigno do Rio de Janeiro, cidade-enclave em que subjetividades periféricas são tecidas no ziguezague entre morro e asfalto, norma e caos, a brisa suave da maconha e a neurose vertical do pó e do crack, dentre outros tantos antagonismos.

Mas o que chama a atenção no livro, e o que liga este esforço textual ao campo da psicanálise, é o retorno à discussão do assim chamado contemporâneo. Este texto não visa tratar o contemporâneo, no âmbito desta obra literária, de modo maciço: a saber, não se procurará definir o que é o contemporâneo, ou qual a sua relação, em larga escala, com a psicanálise. Buscarei focar em um antagonismo estrutural às narrativas de Martins, de grande relevância à construção de minha questão em cartel: trata-se do embate entre norma e exceção, tectonismo cuja reverberações enlaçam as escritas dos nomes do pai nestas narrativas, e jogam luz sobre o tema da pai-versão contemporânea em sua relação com a polis.

Todos os contos de O sol na cabeça são escritos de uma perspectiva socialmente periférica, o que quer dizer que em todos eles o narrador ou personagem principal posiciona-se como morador de uma favela carioca. O arvoramento na elocução periférica é importante, decerto porque a partir dela é possível remeter a subjetividade periférica à carência de Estado, da justiça processual etc. As narrativas, embora em diversos momentos toquem claramente em tais temas, não se constituem como denúncia. Com efeito, tais faltas servem sempre à composição dos pontos de fuga narrativos (não por acaso, como veremos), ou de seus momentos de maior tensão, como no conto que abre o livro, "Rolezim", em que um grupo de jovens tem a missão de sair da favela em direção à praia com o objetivo de lá curtir um baseado e, claro, sua brisa. Trata-se de uma trajetória em direção ao prazer em que não há necessariamente o interesse no desenvolvimento das personagens - estas permanecem mais ou menos no mesmo lugar subjetivo. Como ímãs, elas são jogadas no campo magnético da cidade, que aponta para a possibilidade ou não do cumprimento da trajetória hedonista.

A tensão da narrativa se constitui a partir do perigo implicado na busca pelo prazer que se dá na cidade, ou tendo-a como referência. Trocando em miúdos, trata-se de um trabalho pelo prazer que se dá através da cidade e tendo-a como suporte. Quando, ao final do conto, a polícia militar enquadra os jovens, ameaçando-os com fuzis e decretando sua passagem pela delegacia a despeito de qualquer delito, vê-se a constituição do arco completo da narrativa, no qual a figura do estado de exceção não pode ser compreendido em si mesmo, mas a partir da busca por descompressão prazerosa dos jovens. Voltarei a este ponto à frente: por ora, o importante é declarar que, para os fins deste trabalho, considerarei as figurações da cidade em O sol na cabeça, seus enclaves, pontos de contenção e excesso, como um corpo sobre o qual se inscrevem fulgurações paternas.

A ideia da cidade como corpo torna-se um tanto mais palpável a partir do conto "Rabisco", que narra a história de um ex-pichador que acabara de ter um filho e que, por isso, cogita deixar de lado a atividade arriscada. Pichar é, para o narrador, "tatuar a cidade" (MARTINS, 2018, p.51), e logo de cara este tipo particular de escrita se opõe à sua experiência de paternidade:


Desde que nasceu Raul, seu filho, Fernando fez de tudo para mudar o rumo. Parada difícil, lutar contra os instintos. Não queria mais querer pegar aquele topo em tal lugar, nem ser reconhecido como Maluco Disposição nas reús ou ser chamado para assinar por aquela sigla que é relíquia. Queria mesmo se preocupar com a cria, em se manter vivo, presente. Mas para isso, ele sempre soube, precisava deixar o xarpi de lado, deixar morrer o personagem que ergueu com cara e coragem. (MARTINS, 2018, p.52, grifos meus).



Existem, a partir deste trecho, diversos modos de entrada na temática que aqui interessa - a representação pulsional do exercício do picho, as escritas dos nomes próprios, a preocupação com ser um pai vivo ante a paternidade - mas escolho a ancoragem dada por Éric Laurent no entendimento de um corpo: "O corpo é o lugar do Outro, pois nele o Outro se desdobra, se inscreve" (LAURENT, 2016, p.121). Trata-se de um entendimento do corpo que desloca, no último ensino de Lacan, o lugar do Outro: menos como a fantasia neurótica, que em seus enredamentos tenta a todo custo sustentar o desejo do Outro, e mais como se dá o uso do corpo gozante na perversão. O perverso, segundo Lacan, "faz das malhas da fantasia o aparelho condutor pelo qual furta, em curto-cirtuito, um gozo do qual nem por isso o lugar do Outro o separa" (LACAN, 2003, p.327).

Com efeito não há, em lugar algum de O sol na cabeça, um mistério da cidade, sua essência recôndita, a alma bossa-nova do Rio de Janeiro. A cidade é um corpo-a-corpo com o gozo, de onde se pode às vezes extrair algum prazer (mas nunca sentido). A escrita da personagem de "Rabisco" se dá na chave da perversão, pois do funcionamento do corpo-cidade ele grava uma escrita, e é somente a partir desta inscrição que o sujeito pode aparecer. Esta escrita é, com efeito, o "avesso da subtração de gozo que, segundo Freud, é realizada pelo pai na castração" (LAURENT, 2016, p.121). O furto de gozo é o próprio instinto a que o narrador se refere, e ao qual a experiência regrada (e simbólica) da paternidade se opõe.

Neste ponto adentra-se na discussão do pai no contemporâneo. Certamente atesta-se o desfalecimento do pai freudiano, e seus vapores são apenas sentidos na narrativa como feixes de luz de um farol distante - "Do alto do prédio, escoltando a patrulha improvisada, Fernando não resistiu, pensou no pai" (MARTINS, 2018, p.56) - que se confundem com os traços de seu modo-de-gozo:


E, mesmo que não fosse sua hora, que sobrevivesse à surra, ia precisar explicar em casa aqueles hematomas todos, e saberiam que voltou a pichar, que cedeu ao vício, e o julgariam fraco e também hipócrita, por viver reclamando que seu pai o havia trocado pelo álcool e agora trocava seu filho por tinta. (MARTINS, 2018, p.57, grifos meus)



A partir desta perspectiva da cidade-corpo é possível atestar o porquê de, em nenhum momento do livro, a ausência do Estado e do processo legal ser representada como falta, mas sim excesso: excesso de violência nas fissuras de classe, excesso de violência policial, excesso de violência criminosa: a falta não é subtração. Daqui se compreende o axioma político do filósofo Giorgio Agamben, que define o paradigma político contemporâneo a partir da figura do estado de exceção, este definido como "forma legal daquilo que não pode ter forma legal" (AGAMBEN, 2004, p.12). Traduzindo o aforisma aos termos lacanianos, trata-se de uma escrita do pai que não pode ser paterna, ou de uma escrita do em-gozo através da pai-versão.

Tem-se aí a figuração de uma cidade-corpo contemporânea, cujos orifícios de pulsação de prazer e excesso em muitos momentos foracluem o sentido de uma trajetória individual, tão cara aos romances de Stendhal, por exemplo, ou Thomas Mann, contemporâneo de Freud. O sujeito periférico representado por Martins não tem trajetória, pois, da cidade, não extrai sentido. Não há assim o encontro com o mistério do Outro - o próprio enigma edipiano -, e sim traços de uma escrita em que se furta à cidade o gozo, sintoma contemporâneo que coloca o sujeito sempre num corpo-a-corpo com a pai-versão.


Bibliografia:


AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. São Paulo: Boitempo, 2004.

LACAN, Jacques. "A lógica da fantasia" In Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

LAURENT, Éric. O avesso da biopolítica. Uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.

MARTINS, Geovani. O sol na cabeça: contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

 
 
 

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